Não tem mais peito de fora! – Sara Winter é destaque na revista Veja

Não tem mais peito de fora! – Sara Winter é destaque na revista Veja

Jornalista: Maria Clara Vieira

O corpo é meu! Sara: “Detesto quem mete bedelho nas minhas tatuagens”

Ela já foi a mais barulhenta militante brasileira do Femen. Sentindo-se traída, ela agora explica por que largou o feminismo radical e se converteu ao catolicismo.

Recentemente, você foi impedida de dar uma palestra na Universidade Federal Fluminense. Os ativistas dizem que você dificultou o diálogo ao entrar com seguranças armados. É verdade? 

Não. Entrei acompanhada por amigos que me protegem – mas, se eu tivesse condições, contrataria seguranças particulares, pois claramente preciso ser protegida desses intolerantes. Os cristãos, conservadores e pessoas inclinadas à direita política têm sido suprimidos do espaço universitário.

Você publicou um livro intitulado Vadia, não! Sete vezes em que fui traída pelo feminismo. De onde vem a mágoa?

Nada do feminismo que os movimentos de esquerda propagam é verdade. Ninguém está interessado em ajudar quem sofreu estupro, abuso ou outras formas de violência. Nas reuniões que eu ia, quem mais falava eram as doidas que veneram a menstruação, o útero, a deusa-mãe. blá-blá-blá. Muitas meninas que, como eu, passaram por sofrimento eram usadas só para fazer manifestação. Nos tempos do Femen, chegaram a me pagar para protestar de peitos de fora. Mas, apesar de tudo, ainda me considero pró-mulher.

Por que o feminismo é sempre associado à esquerda? 

Por causa do erro crasso da direita de opor-se a tudo o que considera de esquerda. Em nome disso, ficam dizendo, por exemplo, que assédio não existe, que é mimimi, frescura. Estão dando de bandeja pautas legítimas para o outro lado.

O catolicismo influiu no seu afastamento do feminismo?

A religião foi fundamental. Fiquei grávida pela segunda vez – na primeira, abortei – e comecei a frequentar a chácara de uma senhora que dava aulas de ioga para gestantes. Lá, tinha de rezar o pai-nosso e a ave-maria, e comecei a sentir muita vontade de voltar para a igreja.

Como foi a reconciliação?

Eu tinha vergonha do meu passado. Afinal, fui a menina que ficou pelada, crucificada, beijando outra mulher, em frente à Igreja da Candelária no Rio. Na minha primeira confissão, passei quatro horas falando. O ouvido do padre devia estar pegando fogo, coitado.

Mudou completamente, então?

Nem tanto. Mantenho muitos dos meus gostos. Não dispenso rock e detesto quem mete o bedelho nas minhas tatuagens. Mas até nelas estou mexendo. Esta Frida Kahlo no meu antebraço vai virar uma Nossa Senhora de Guadalupe.